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entre uma nuvem

e outra,

o céu oscila.

há alguns dias e noites de distância da partida, enfim a chegada. o pintor mais falado de boca em boca de todo nordeste havia chegado. diziam que ele era capaz de trazer um Vaticano inteiro num diâmetro da cabeça. conta a lenda das lavadeiras do rio que em apenas dois dias e duas noites de sol ele foi capaz de reproduzir com todos os detalhes a Capela Sistina, sonho grande dum padre de cidade pequena. quem viu, conta que os afrescos são tão parecidos iguais quanto os originais do Vaticano. como aquele da Tentação de Cristo e a Purificação do Leproso. sua fama logo chegou aos ouvidos paroquiais do padre Benedito, que desde sua infância esfomeada no sertão alimentava na barriga um sonho: construir a igreja mais bonita de meu deus que essa terra já viu. padre Benedito havia catalogado ao longo de toda uma vida nada menos que 359 imagens de recortes de jornais e revistas com igrejas de todo nordeste e fora dele. agora, com a presença ilustrada do pintor na cidade, seu sonho nunca esteve tão perto dos olhos. mas afora a fama de ser o maior pintor intermunicipal, pouco se sabia sobre suas origens. era conhecido apenas como pintor, isso era tudo. se tinha um nome, nunca ninguém jamais soube. acreditava-se que era pintor desde nascença. suas mãos eram leves, alvas e frescas de tanta tinta. não tinha posses. logo que chegou foi cuidar dum lugar pra ficar protegido do sol. não pretendia ficar mais do que aquilo que fosse combinado. no mesmo dia ergueu uma casinha de sapé de dimensões cubiculares nos arrabaldes da cidadezinha . ali cercou devidamente um espaço de terra e , em seguida, pôs solto um par de galinha caipira e um galo que havia recebido como pagamento pelo último serviço. já era bem tarde do dia e estava cansado demais pra ir ao encontro do padre Benedito. onde escolheu ficar, levava pouco mais de algumas horas de passos e umas bem poucas horas de diferença a menos montado num jegue ou em qualquer outro animal de destino semelhante. como não podia contar com o transporte de nenhum pobre animal, o jeito era usar a sola do pé. assim ficou, portanto, decidido, uma vez que estava tomado pelo cansaço de horas de dias e noites caminhando debaixo dum sol de rachar até o chão da lua , que iria se encontrar com o padre Benedito logo pela manhã. combinou tudo com o galo e foi se deitar. e dormiu. não porque carregava o sono, senão por penitência.

sapo haikai

 

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