Praga tem o hábito de colecionar sonhos e pendurá-los nas janelas, como roupas sujas. certo é que existe em Praga uma cultura da simulação visual. o personagem da noite dificilmente escapa do embate; a vista deforma de tal modo que não se consegue enxergar os elementos noturnos. toda noite a cidade é acometida por uma profusão de sons. tais como os balidos que agora invadiam o quarto. eram balidos demasiados altos, ensurdecedores, duma promiscuidade capaz de preencher todos os espaços do quarto. ora a impressão é que eles vinham da rua ou dos outros quartos da estalagem – na verdade, pouco se sabe sobre o que acontece do lado de fora; ora a sensação era de que os sons estavam dentro do minúsculo armário, aos golpes, num frenesi digno de uma amistosidade guerreira. não obstante, nosso personagem mantinha-se incólume; decidido a vencer seu destino. pegou um pedaço de papel surrado e escreveu as seguintes palavras:
“ os olhos devem estar sempre abertos para as surpresas.”
nisso, coincidentemente, ao ler o que acabara de escrever, os balidos subitamente cessaram.
o quarto agora causava a impressão do silêncio das praias sem fim.
continua…

2 comments
Comments feed for this article
30 30UTC Maio 30UTC 2008 às 5:34 pm
Cássia
Muito bom o texto.Talvez ele mesmo tenha feito o silêncio, ou ele mesmo tivesse inventado o som.
3 03UTC Junho 03UTC 2008 às 4:13 am
Chris Cunha
Olha só esses textos! E eu que delimitava sua capaciodade aos versos desconstruídos… Esses fragmentos oníricos e alertas, do real, imaginário e dos sentidos apurados me fazem desejar trocar lingüística por literatura apenas pelo doce prazer de ver meus alunos desconstruindo e reconstruindo seus versos e prosas… Que símbolos e valores tirariam deles, e como interpretariam sua intervensões que cemtripedamente nos remetem para fora do assunto proposto sem nenhum pudor. E que força centrífuga tem seus textos que nos recolocam no eixo dos seus interesses? Você descontrói mui sinicamente o discurso fechado, hermético diante de nós e nos convida a construir com você novos sentidos, novos discursos… Seus textos, todos eles, me parecem um convite à fuga do convencional, do lógico, do esperado… Um convite ao absurdo real e significativo… Das possibilidades implícitas… À releitura do que ainda é novo… Ao atrevimento! Parabéns pela genialidade textual!