a respiração silenciosa que vinha do quarto vizinho era lacerante. caminhou tácito até a porta disposto a abri-la. frente à porta, seguiram-se dois minutos ininterruptos de indecisão. nada aconteceu. retrocedeu. não era um sujeito intrépido sob quaisquer circunstancias, não seria agora. respirou fundo para não agredir o silencio. de pé, passeou os olhos pelo quarto. não havia mais que uma cama, uma secretária, além dum minúsculo armário. era um quarto escuro, sobretudo a noite. o cheiro de mofo era quase insuportável. a janela vivia fechada. aliás, um hábito que deveria ser respeitado por todos os moradores da estalagem, sob a pena de desocupação imediata . o estalajadeiro foi categórico quanto a preservação das janelas quando lhe entregou a chave do quarto. na hora não deu nenhuma importância, afinal não esperava passar mais que uma noite ali. e agora se perguntava por que era terminantemente proibido abrir as janelas. e mais, por que continuava vivendo ali há duas semanas. por fim, pensou em todas as vezes que prometeu deixar aquele quarto na manhã seguinte. algo o mantinha vivo ali, embora ele custasse a acreditar que pudesse existir naquele quarto algum vestígio de vida.

continua…

nota: deveria ter chuva nesse fragmento. a chuva acalentaria um pouco a dor de quem não está satisfeito com os meandros produzidos nesse fragmento.