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Millena irrompeu bem na sua frente. sentiu-se como quem acaba de acordar de uma vida oprimida por sonhos perturbadores. sem perceber, tinha acabado de cair na perdição da noite que se esconde. ninguém até hoje conseguiu acompanhar com os sentidos essa transição – a noite eclipsa todos os sentidos, sobretudo em Praga. produziu um movimento perturbador. já não sabia mais onde estava, se ainda dentro do quarto ou se era o quarto dentro dele, possuindo uma parte das suas lembranças mais amorosas.

continua…

nota: as de 1 real, são as únicas que vejo com certa reincidência. as de 100, confesso, nunca as vi. que bicho será que elas trazem no verso? deve ser um bicho daqueles em risco de extinção ou quiçá um bicho-poema.

ora ouvia leves ruídos que lhe pareciam suspeitos, ora era o silêncio suspeito. tudo lhe parecia suspeito. se tivesse um espelho, o reflexo lhe seria suspeito. sentia-se vigiado em seu próprio quarto. assim sendo, decidiu passar aquela noite em sentinela. teria pela frente mais algumas horas antes de amanhecer. estando ali, sabia o quanto seria difícil manter-se acordado. a noite, Praga torna-se extremante sedutora, implacável com aquele que foge às regras. é claro que ele sabia bem disso. lembrou da última vez que estivera na cidade, há quase um ano. a lembrança era tão viva que quase podia tocar: Millena.

continua…

nota: é o pior fragmento de todos até aqui. demasiado feio. mas eu precisava me livrar do último.

a respiração silenciosa que vinha do quarto vizinho era lacerante. caminhou tácito até a porta disposto a abri-la. frente à porta, seguiram-se dois minutos ininterruptos de indecisão. nada aconteceu. retrocedeu. não era um sujeito intrépido sob quaisquer circunstancias, não seria agora. respirou fundo para não agredir o silencio. de pé, passeou os olhos pelo quarto. não havia mais que uma cama, uma secretária, além dum minúsculo armário. era um quarto escuro, sobretudo a noite. o cheiro de mofo era quase insuportável. a janela vivia fechada. aliás, um hábito que deveria ser respeitado por todos os moradores da estalagem, sob a pena de desocupação imediata . o estalajadeiro foi categórico quanto a preservação das janelas quando lhe entregou a chave do quarto. na hora não deu nenhuma importância, afinal não esperava passar mais que uma noite ali. e agora se perguntava por que era terminantemente proibido abrir as janelas. e mais, por que continuava vivendo ali há duas semanas. por fim, pensou em todas as vezes que prometeu deixar aquele quarto na manhã seguinte. algo o mantinha vivo ali, embora ele custasse a acreditar que pudesse existir naquele quarto algum vestígio de vida.

continua…

nota: deveria ter chuva nesse fragmento. a chuva acalentaria um pouco a dor de quem não está satisfeito com os meandros produzidos nesse fragmento.

passa o destino

pela menina

dos olhos

do menino

acordou num rompante, na noite silenciosa da cidade. algo havia acontecido no quarto contíguo que o fez despertar subitamente de seus sonhos. havia duas semanas apenas que morava ali. sabia que todos os quartos estavam ocupados. e isso era tudo. não se fazia menção alguma sobre o modo de vida dos hóspedes. nada sobre seus nomes ou há quanto tempo viviam ali. existia uma intimidade como em nenhum outro lugar de Praga. no entanto, essa noite a ordem havia sido perturbada.

continua…

( sujeito a revisão contínua e permanente. não se propõe a nada. sujeito às interrupções e interruptores, desses de luz. )

nota: há uma reincidencia de “havia”, que justifico: não sei produzir literatura nesse formato.

coisa de coração

é mais-que-palpite

é palpitação.

pra que

por quê?

se até a noiva

joga o buquê.

o amor é o

máximo

da vida

minimalista

* o título é uma referência ao poeta Paulo leminski.

queria ser uma kombi

um kamikase cheio de rosas

a prosa pós-hecatombe

o lado feminino da crase

queria ser tudo

ou quase.

a esperança foi

à praia

e jogou a toalha.