aberta a temporada de caça-palavras
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uma fenda
no dilema
reza a lenda
toda dúvida
vira um poema.
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quando o muro
envelhece
até ele desce.
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íntimo, o silêncio cortinava o quarto com todo mal que o passado havia lhe causado, resgatando todas as imagens atrozes. as más lembranças polidas agora vinham à tona com um peso sem igual, pressionando-lhe as têmporas numa tentativa insólita de regressar ao lugar de onde nunca deveriam ter saído. e o silêncio, antes tão desejado, agora o enraivecia; pior, era como se ele nunca mais fosse se extinguir. precipitou um desejo avassalador de gritar, posto de lado instantaneamente. seria pueril demais confrontar o silêncio aos gritos. mas não sabia o que fazer. o silêncio formigava todo o corpo. não queria acordar os hóspedes e quiçá toda a cidade com seus espasmos. isto posto, deveria suportar toda a dor que o silêncio lhe provocava, além do sentimento de culpa que as lembranças traziam à tona se quisesse avançar em seu propósito. e aí nosso personagem tomou uma atitude surpreendente - havia anos Praga não sofria um inverno tão rigoroso como fazia esta noite. com igual elegante frieza, nosso personagem livrou-se de toda roupa que vestia. já não precisava mais dela, não havia mais motivos para se disfarçar.
fora descoberto.
continua…
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onde há
mar,
amor.
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como malabares
o amor
foi pros ares.
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Praga tem o hábito de colecionar sonhos e pendurá-los nas janelas, como roupas sujas. certo é que existe em Praga uma cultura da simulação visual. o personagem da noite dificilmente escapa do embate; a vista deforma de tal modo que não se consegue enxergar os elementos noturnos. toda noite a cidade é acometida por uma profusão de sons. tais como os balidos que agora invadiam o quarto. eram balidos demasiados altos, ensurdecedores, duma promiscuidade capaz de preencher todos os espaços do quarto. ora a impressão é que eles vinham da rua ou dos outros quartos da estalagem - na verdade, pouco se sabe sobre o que acontece do lado de fora; ora a sensação era de que os sons estavam dentro do minúsculo armário, aos golpes, num frenesi digno de uma amistosidade guerreira. não obstante, nosso personagem mantinha-se incólume; decidido a vencer seu destino. pegou um pedaço de papel surrado e escreveu as seguintes palavras:
“ os olhos devem estar sempre abertos para as surpresas.”
nisso, coincidentemente, ao ler o que acabara de escrever, os balidos subitamente cessaram.
o quarto agora causava a impressão do silêncio das praias sem fim.
continua…
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folhas caem
no sono
o outono também
quer sonhar.
“duas folhas na sandália
o outono
também quer andar”
leminski
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nuvem
e vai
voa o céu
só o amor
justi
fica
o véu.
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Millena irrompeu bem na sua frente. sentiu-se como quem acaba de acordar de uma vida oprimida por sonhos perturbadores. sem perceber, tinha acabado de cair na perdição da noite que se esconde. ninguém até hoje conseguiu acompanhar com os sentidos essa transição - a noite eclipsa todos os sentidos, sobretudo em Praga. produziu um movimento perturbador. já não sabia mais onde estava, se ainda dentro do quarto ou se era o quarto dentro dele, possuindo uma parte das suas lembranças mais amorosas.
continua…
nota: as de 1 real, são as únicas que vejo com certa reincidência. as de 100, confesso, nunca as vi. que bicho será que elas trazem no verso? deve ser um bicho daqueles em risco de extinção ou quiçá um bicho-poema.
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